Infraestrutura

Enquanto não é vendida, a Sabesp vai às compras

Especulada na lista de estatais privatizáveis, a SABESP mantém seus planos de investimento e até mesmo busca adquirir participação em outras empresas do setor

Postado dia 18/11/2020 por JIANE CARVALHO
Enquanto não é vendida, a Sabesp vai às compras

Benedito Braga, presidente da Sabesp: despoluição do rio Pinheiros / Foto: Germano Lüders

Alvo recorrente de especulações sobre sua eventual privatização, a Sabesp, companhia de saneamento básico do estado de São Paulo, fez este ano um movimento que surpreendeu o mercado. Enquanto muitos esperavam o início do processo de venda da empresa, após a aprovação do novo marco legal do setor, em julho, a estatal decidiu participar como compradora do leilão de privatização da Casal, empresa de saneamento que atua em Maceió, Alagoas. Não ganhou a concorrência, mas mandou o recado. “Sobre privatização ou capitalização da Sabesp, perguntem ao governador (João Doria) ou ao secretário (Henrique Meirelles). De nossa parte, seguimos trabalhando e vendo oportunidades para melhorar e expandir a operação”, afirma Benedito Braga, presidente da Sabesp.

A ordem na estatal é ignorar as especulações e seguir com o plano de investimento, de 20,2 bilhões de reais até 2024. São aportes para acompanhar a demanda crescente por água e saneamento e também para desenvolver projetos dentro do conceito de economia circular, como produção de fertilizantes ou geração de energia a partir do esgoto. Se decidir entrar na disputa de outras privatizações do setor, afirma o presidente, seguirá no mesmo modelo montado para o leilão da Casal, sendo minoritário e em parceria com empresa privada. “O modelo é interessante porque dá à nova empresa liberdade para atuar, sem as amarras de uma estatal como a exigência de licitações para qualquer compra”, comenta Braga. O sócio da Sabesp no consórcio que disputou a Casal, arrematada pela canadense BRK Ambiental, foi a Iguá Saneamento.

Além de estimular privatizações, outros efeitos da nova legislação do saneamento também são positivos para a Sabesp, como a obrigatoriedade de que o cidadão pague pelo serviço de esgoto se estiver disponível em sua residência. “Antes, a rede passava em frente à casa e, para não pagar, o dono optava por não ligar a unidade à rede, preferindo jogar dejetos no meio ambiente. Isso não pode mais.” Outra mudança importante, mencionada por Braga, é a possibilidade de a Sabesp fornecer água e coleta de esgoto mesmo em áreas de ocupação ilegal, bastando que a prefeitura reconheça o interesse em regularizar. “A mudança favorece o cidadão e é boa para a Sabesp, que pode expandir o serviço e elevar receita”, diz.

Nos últimos anos, o aumento na receita vem sendo um fator importante na melhora da operação. São várias as iniciativas da companhia que deram resultado. No ano passado, a receita da Sabesp foi de quase 4,6 bilhões de dólares, um crescimento de 8% em relação ao a 2018. O lucro chegou a 972 milhões de dólares, 15% a mais do que no ano anterior. Os principais movimentos em 2019 foram a inclusão na base de clientes de cidades como Santo André e Guarulhos e, neste ano, de Mauá, além da negociação e formalização de contratos de municípios do litoral. “De Peruíbe a Ubatuba, todos os contratos foram formalizados com metas claras de fornecimento e cobrança, o que nos dá garantia jurídica.”

Os efeitos da pandemia da covid-19 na operação ficaram restritos ao menor consumo industrial e comercial, o que foi compensado em parte pelo aumento no residencial. No primeiro trimestre, a alta do dólar afetou de forma relevante o balanço pela exposição cambial da dívida, o que fez a Sabesp acelerar o processo de mudança no perfil de endividamento. Entre janeiro e o final do segundo trimestre, a dívida dolarizada caiu de 55% para 34%. Para manter o programa de investimento em 2020, de 3,5 bilhões de reais, a Sabesp fez um forte ajuste orçamentário com a redução de cerca de 400 milhões de reais nas despesas.

Um dos projetos mais importantes para a empresa, segundo destaca seu presidente, é o Novo Rio Pinheiros, que consumirá 1,7 bilhão de reais até 2022 e já está em andamento. A Sabesp irá conectar residências que hoje lançam esgoto no rio como parte das iniciativas para despoluir o rio. Os projetos voltados à economia circular também seguem a todo vapor. A iniciativa mais recente, cujo contrato com o consórcio Reintegrar (Fremix e Soebe) foi assinado em novembro, prevê a implantação de uma usina de reciclagem para produção de base asfáltica a partir de resíduos de obras de saneamento. Serão investidos 29,6 milhões de reais em 30 meses, e a Sabesp deixará de descartar 150 toneladas de material por ano nos aterros.

Outras iniciativas importantes com foco na economia circular é a conversão de resíduos sólidos (lodo dos aterros) em energia, em Franca (SP), e a produção de fertilizantes para o agronegócio a partir do esgoto captado. Também neste ano, a Sabesp começou o Programa de Geração Distribuída de Energia Fotovoltaica, com investimentos de 240 milhões de reais até 2024 em 31 usinas, que atenderão 65% do consumo em baixa tensão da Sabesp. A economia pode chegar a 55 milhões de reais por ano. Na visão do presidente da Sabesp, a aposta na economia circular se justifica não apenas pelo meio ambiente. “Hoje estamos investindo, mas no futuro a economia circular será rentável, uma parte do negócio”, diz Braga. “Temos interesse em avançar e dar escala aos projetos. Caminhamos para um futuro sem aterros e com o reaproveitamento máximo de tudo o que é gerado na operação.”

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