Transporte

A NTS se prepara para a era multiclientes do novo mercado de gás

Especializada no transporte de gás natural e atendendo hoje unicamente a Petrobras, a NTS prevê mais competição com o novo ambiente regulatório

Postado dia 18/11/2020 por SUZANA LISKAUSKAS
A NTS se prepara para a era multiclientes do novo mercado de gás

Wong Loon, presidente da NTS: o plano é investir 900 milhões de reais até 2024/ Foto: André Valentim

A pandemia da covid-19 não desviou a Nova Transportadora do Sudeste (NTS) das metas que havia traçado para 2020. Especializada em transporte de gás natural, a NTS triplicou o número de funcionários desde o ano passado, desenvolveu programas de gestão de risco e investiu em treinamentos da equipe na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália. Essas ações convergem para o objetivo principal da empresa neste ano: preparar-se para atuar no novo mercado de gás, uma iniciativa do governo federal para promover a abertura e a competição no setor.

“Ter uma equipe própria de operação e manutenção sempre esteve no nosso planejamento estratégico”, diz Wong Loon, presidente da NTS. Ele destaca que, em pleno ano de pandemia, a empresa está se dando ao “luxo” de contratar pessoas — o número de funcionários subiu de 75 em 2019 para 217 este ano. No rol de serviços essenciais, as atividades da NTS não sofreram interrupções durante a pandemia. A empresa adotou três premissas para o momento de crise. “Priorizamos a saúde dos funcionários e seus familiares, focamos na continuidade operacional e na garantia de receitas”, afirma Loon. “Com muita disciplina, respeitamos as três premissas e não tivemos nenhum colaborador doente.”

Desde o ano passado, a NTS tem priorizado os investimentos para aprimorar a sua malha de dutos, que passa por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mas os planos para expansão dessa malha só serão desenhados após a aprovação da Lei do Gás, atualmente em tramitação no Congresso. Até 2024, a NTS pretende investir um total de 900 milhões de reais em projetos de melhoria das instalações, capacitação de funcionários, aquisição de software e conclusão do seu Centro de Controle Operacional, orçado em torno de 50 milhões de reais. “Estamos investindo na construção do Centro de Controle Operacional, na nossa sede, no Rio de Janeiro, que será inaugurado em 2021 e vai operar remotamente os 2.048 quilômetros de dutos da empresa”, diz Loon.

O executivo considera esses investimentos imprescindíveis para a empresa se antecipar ao ambiente de multiclientes e ao modelo comercial de entrada e saída, previstos no projeto de lei 6.407/2013, que delineia o novo mercado de gás no Brasil. A NTS era controlada pela Petrobras até 2017, quando foi vendida para uma afiliada brasileira da gestora de investimentos canadense Brookfield. A estatal brasileira permanece como a única cliente do gasoduto operado pela NTS, que precisa agora se preparar para atender múltiplos clientes, conforme previsto pela nova Lei do Gás.

Atualmente em análise no Senado para a definição do novo marco regulatório de gás, o PL 6.407/2013 tem, na avaliação de Loon, “muita dose de realidade”. Ele revela que a NTS participou do grupo que discutiu a nova Lei do Gás, composto por integrantes do Ministério de Minas e Energia, do Ministério da Economia, da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). “Tínhamos uma reunião de uma hora e ficamos mais três horas porque apresentamos um plano de trabalho. Levamos informações sobre a realidade do transportador e contribuições construtivas para o mercado”, conta Loon. “Foi dessa apresentação que saiu o prazo de três anos para a transição das regras. Fomos ouvidos.”

Para Lavinia Hollanda, fundadora e diretora executiva da consultoria Escopo Energia, a Lei do Gás é um marco importante, mas há muita mudança por vir. “Uma vez me perguntaram se eu fosse fazer a abertura do mercado de gás e só tivesse uma bala de prata, o que eu mudaria”, diz Hollanda. “A primeira mudança seria no sistema de transporte, que é exatamente onde a NTS está.” De acordo com a consultora, a nova lei traz elementos que facilitam a expansão da rede da NTS, mas a empresa deve ficar atenta aos aspectos de sustentabilidade. “Passar um gasoduto em determinadas regiões não é tão simples assim. Há muitos impactos ambientais”, diz. “Quando se fala de investidores focados em ESG, a agenda da sustentabilidade tem que estar na ordem do dia.”

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