Papel e Celulose

A Klabin aposta em um novo ciclo de expansão

Maior produtora de papéis para embalagens do Brasil, a KLABIN vai investir 9,1 bilhões de reais até 2023 para ampliar seu complexo industrial no Paraná

Postado dia 18/11/2020 por ÉRICA POLO
A Klabin aposta em um novo ciclo de expansão

Cristiano Teixeira, CEO da Klabin: primeiro papel kraftliner do mundo feito a partir do eucalipto / Foto: Germano Lüders

A demanda crescente por embalagens e o cenário com janelas de recuperação do preço da celulose contribuíram para que a Klabin fechasse 2019 com um lucro líquido ajustado de 234,3 milhões de dólares. As vendas da centenária companhia, que atua em quatro divisões de negócios — florestal, celulose, papéis e embalagens —, atingiram quase 2,6 bilhões de dólares no ano passado, quando foram dados os primeiros passos rumo a um ambicioso novo ciclo de expansão com horizonte até 2030. O setor vinha marcado por movimentações, com destaque para a fusão entre a Suzano e a Fibria, e a montanha-russa das cotações internacionais da celulose. Neste ano, como em outros segmentos de negócios, as empresas precisaram ajustar-se aos desafios adicionais trazidos pela pandemia de coronavírus.

“Desafiador foi operar normalmente em 2020. O contexto uniu demanda acima da regular e a importância de revisar protocolos de segurança nos escritórios e nas fábricas no início da crise sanitária, quando se sabia muito pouco a respeito”, diz Cristiano Teixeira, CEO da Klabin. Ele conta que os planos de longo prazo não sofreram alterações. A companhia, maior produtora e exportadora de papéis para embalagens do Brasil, direcionou mais de 38 milhões de reais a iniciativas relacionadas à covid-19 para suas unidades, em linha com orientações da Organização Mundial da Saúde, e a doações, sem que a produção fosse afetada. Em meio aos ajustes, houve uma redução de ritmo na obra do projeto Puma II, em Ortigueira, no Paraná. O quase intervalo de dois meses no local ocorreu no primeiro semestre, quando o número de trabalhadores foi reduzido dos cerca de 5.000 para poucas centenas, para seguir os protocolos de segurança sanitária. “Agimos pela saúde das pessoas e retomamos devagar. Um surto de coronavírus em uma obra dessa magnitude seria trágico”, afirma Teixeira. A operação já está normalizada.

O Puma II é um dos primeiros passos do planejamento de longo prazo do ciclo de expansão da companhia e receberá um aporte total de 9,1 bilhões de reais entre 2019 e 2023. A redução pontual do ritmo da obra deve atrasar um pouco o início da operação da primeira máquina de papel para embalagens da unidade, antes previsto para maio de 2021. Teixeira não crava quando, mas diz que possivelmente será no terceiro trimestre do mesmo ano, sem atraso significativo para os negócios da companhia. O projeto contará com duas máquinas para ampliar a capacidade produtiva de kraftliner (um papel resistente, indicado para embalagens) em quase 1 milhão de toneladas. A entrega em 2021 terá potencial de 450.000 toneladas por ano e, a outra, de 420.000 toneladas por ano. O segundo equipamento deverá funcionar a partir de 2023. Dessa fábrica sairá o papel kraftliner feito de eucalipto, uma inovação com patente já requerida pela companhia — o Eukaliner.

Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento resultaram no primeiro kraftliner do mundo feito a partir do eucalipto em vez do tradicionalmente utilizado pinus, com vantagens que envolvem desde ganho de qualidade de impressão a menor peso, segundo a Klabin. O papel é matéria-prima para caixas de papelão ondulado dos mais variados tipos: das que transportam itens a varejistas e atacadistas às que permitem exportações de frutas delicadas. Como se usa menos fibra para produzir o Eukaliner, o papel é mais leve. Assim, uma caixa feita com esse material poderá ter gramatura reduzida em mais de 10%, mantendo a mesma estrutura. “O eucalipto leva sete anos para crescer, metade do tempo do pinus”, diz Teixeira. Com o aumento de produção do novo item, a Klabin espera maior retorno do capital investido. Além disso, quer galgar posições no ranking global de vendas de papel kraftliner — o objetivo é avançar do sétimo para o terceiro lugar, em um mercado que movimenta cerca de 10 milhões de toneladas por ano.

A aposta num novo material ocorre em momento favorável para as empresas do setor de papéis e embalagens. O crescimento de vendas pelo comércio eletrônico, mesmo antes da crise sanitária, e o bom ritmo de vendas das companhias de alimentos e de bens de consumo contribuem para o andamento dos negócios da Klabin. Cerca de 80% de sua produção é destinada a segmentos considerados de primeira necessidade. Fora a demanda por tipos distintos de papéis para embalagens, que inclui as caixas de papelão e os cartões para líquidos — a empresa é uma das três principais fornecedoras da Tetra Pak no mundo —, atende outros mercados resilientes à crise. É o caso dos papéis sanitários, fraldas e materiais hospitalares.

Para Lucas Carvalho, analista da Toro Investimentos, a diversidade de mix e o atendimento a segmentos com demanda firme diante do cenário são claras vantagens competitivas para a Klabin. “Os resultados operacionais do primeiro semestre de 2020 foram bons a ponto de reduzir o receio do mercado em relação ao nível de endividamento”, diz Carvalho. A relação dívida líquida/Ebitda em reais caiu de 4,7x no primeiro trimestre para 4,4x no segundo trimestre deste ano.